Estamos vivendo uma época de policrise. Se você se sente paralisado, saiba que não está sozinho

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Entenda como a policrise afeta nossa saúde mental, reduz a motivação e dificulta planejar o futuro e o que fazer para recuperar direção

Tem algo acontecendo que muita gente sente, mas nem sempre consegue nomear. Não é exatamente tristeza. Também não é só cansaço, é uma dificuldade real de imaginar o que vem depois e de se empolgar com o longo prazo.

A gente sempre acreditou que ter uma ideia de futuro ajudava a atravessar o presente. Quando conseguimos imaginar um amanhã mais estável, mais justo, mais possível, fica mais fácil lidar com as dificuldades de hoje. O problema é que, nos últimos anos, essa imagem ficou turva.

Instabilidade política, insegurança econômica, mudanças climáticas, excesso de informação, crises que se acumulam e se sobrepõem. Cientistas sociais têm chamado esse fenômeno de policrise: quando múltiplas crises acontecem ao mesmo tempo e interagem entre si. O efeito não é só externo. Ele entra no corpo, na mente, na nossa capacidade de projetar a vida.

E o cérebro sente isso.

Por que está tão difícil pensar no futuro?

Nosso cérebro não foi “projetado” para lidar com incerteza radical. Quando imaginamos o futuro, criamos algo parecido com uma memória antecipada. Psicólogos chamam isso de “pensamento episódico futuro”. Ele é essencial para planejar, regular emoções e tomar decisões.

Mas existe um detalhe importante: quando somos constantemente lembrados de que o futuro é incerto, nossa capacidade de imaginar possibilidades diminui. Estudos mostram que, diante da incerteza, as pessoas projetam menos cenários positivos e passam a confiar menos nos próprios pensamentos.

Ou seja, não é que você tenha perdido a ambição ou a disciplina. O contexto influencia diretamente sua habilidade de visualizar o que vem pela frente.

E isso pode afetar produtividade, motivação e até a sensação de propósito.

Não é fraqueza individual: é contexto coletivo.

Pesquisadores como Daniel Gilbert, da Universidade de Harvard, explicam que já somos naturalmente ruins em prever como nos sentiremos no futuro. Em tempos de estabilidade, isso já é um desafio. Em tempos de múltiplas crises, a tarefa fica ainda mais complexa.

Quando tudo parece instável ao mesmo tempo, o cérebro entra em modo de autoproteção. Ele reduz horizontes. Foca no imediato. Tenta sobreviver ao agora.

O que outras sociedades fizeram em tempos parecidos?

Pesquisas históricas mostram que, em períodos de grande instabilidade, comunidades passaram a encurtar seus planos. Em vez de pensar em décadas, focaram em fortalecer vínculos próximos, família, amigos, comunidade.

Clubes, associações, encontros, redes de apoio surgiram como resposta ao caos. Não era fuga da realidade. Era reconstrução de sentido, quando o futuro distante parece inalcançável, o futuro próximo pode ser reconstruído.

Como recuperar a sensação de direção?

Talvez a pergunta não seja “como planejar os próximos 10 anos?”, mas “quais valores continuam importantes para mim, mesmo agora?” Mesmo em tempos difíceis, ainda é possível organizar pequenas decisões ao redor do que importa. Isso não significa ignorar a realidade, mas agir dentro do que está ao alcance.

Também é importante flexibilizar expectativas. A incerteza prolongada costuma nos levar a revisitar o passado com arrependimento, como se deveríamos ter previsto tudo. Esse movimento tende a paralisar mais do que ajudar. Às vezes, recuperar o futuro começa reduzindo o horizonte: pensar na próxima semana, no próximo mês, no próximo passo possível.

Você não perdeu o futuro, só precisa se reequilibrar

É comum sentir que não somos mais a versão de 2019 de nós mesmos. E realmente não somos. O mundo mudou. Nós mudamos. Mas isso não significa que estamos quebrados. Pesquisas mostram que seres humanos se adaptam melhor do que imaginam. Mesmo após períodos difíceis, grande parte das pessoas retorna a níveis de bem-estar próximos aos anteriores.

Se hoje parece difícil imaginar um amanhã mais leve, isso não significa que ele não exista, pode ser apenas um convite para reorganizar a forma como você pensa o tempo, as metas e o que realmente importa.

E, se esse processo parecer pesado demais para fazer sozinho, é importante lembrar: você não precisa atravessar isso sem apoio.

Na Ser Bene, acreditamos que construir direção passa por autorregulação emocional, clareza interna e comunidade. Em tempos de policrise, fortalecer o sistema nervoso, organizar pensamentos e reconectar-se com seus valores pode ser o primeiro passo para recuperar o sentido de futuro.

Foto de Dani Quartezani

Dani Quartezani

Danielle Quartezani escreve desde os oito anos e, desde então, nunca mais deixou de transformar o que sente em palavras. Encontrou na escrita e na psicoeducação um caminho para compreender a si mesma e ao mundo. Hoje é uma das fundadoras da Ser Bene e segue acreditando que escrever é, antes de tudo, uma forma de cura.

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