Grandes relacionamentos são construídos sobre a base da amizade. Se estamos tendo dificuldade para manter amizades, não é surpresa que também estejamos lutando para sustentar nossos relacionamentos amorosos
Nos últimos anos, muita gente tem se perguntado o que está acontecendo com os relacionamentos. O número de casais diminuindo, as pessoas preferindo ficar sozinhas, o cansaço de tentar e não conseguir criar vínculos reais… parece que existe uma crise na forma como a gente se conecta. Mas, antes de culpar os aplicativos, a pressa ou a falta de tempo, talvez a pergunta devesse ser outra: e se a crise dos relacionamentos for, na verdade, uma crise das amizades?

O que está acontecendo com as nossas conexões
A terapeuta e especialista em relacionamentos Adaeze Chiwoko explica que toda relação amorosa nasce da amizade é a base da confiança, da empatia e da intimidade. Quando temos dificuldade de construir e manter amizades, acabamos levando o mesmo padrão pros relacionamentos amorosos.
Nos últimos 20 anos, as relações presenciais diminuíram drasticamente. Um estudo de 2023 mostrou que pessoas entre 15 e 24 anos passam 70% menos tempo com amigos do que a geração anterior. E o tempo médio de convivência caiu pela metade: de seis horas semanais para apenas três.
O resultado? Menos convivência significa menos treino emocional. A gente desaprendeu a conversar, a lidar com desconfortos, a sustentar o silêncio e até a discordar com afeto. A consequência disso é clara: ficamos mais solitários, mais ansiosos e mais inseguros para criar laços.

A geração mais conectada (e mais sozinha)
O paradoxo é curioso: nunca estivemos tão online e, ao mesmo tempo, tão isolados. As redes sociais prometeram aproximar as pessoas, mas o que temos hoje é uma geração que se sente exausta de socializar, sobrecarregada emocionalmente e desconectada até de si mesma. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a solidão já é considerada um problema global de saúde pública.
A psicóloga Iane Ventura, fundadora da Ser Bene, explica que isso tem muito a ver com a forma como gastamos nossa energia emocional. “O cérebro, como qualquer órgão, tem um limite de energia. Quando há uma demanda emocional contínua: trabalho, telas, relacionamentos, redes sociais e ele entra em exaustão. E aí, sobra pouco espaço pra estar disponível de verdade pras pessoas.”
O impacto do individualismo na forma de se relacionar
Nas últimas décadas, fomos ensinados a sermos autossuficientes A cultura da performance – do sucesso, da independência e da produtividade – afastou o senso de comunidade. Aprendemos a focar tanto no “eu” que esquecemos o “nós” e o resultado é uma sociedade que não sabe mais como se apoiar.
As amizades, que antes eram um lugar de descanso e cumplicidade, viraram mais uma tarefa na agenda. A gente se encontra menos, responde mensagens com atraso e chama de “falta de tempo” o que, muitas vezes, é falta de energia emocional pra se envolver. Mas vínculos verdadeiros exigem investimento de tempo, de presença e de vulnerabilidade. E, num mundo acelerado, tudo isso virou luxo.

Como começar a reconstruir vínculos
A boa notícia é que essa crise tem conserto e começa com gestos pequenos. Conexão é uma habilidade que pode ser reaprendida, aos poucos.
- Reapareça.
Mande mensagem pra alguém que você gosta, mesmo que seja só pra perguntar “como você tá?”. O contato constante é o que sustenta o vínculo. - Priorize encontros reais.
As interações online ajudam, mas não substituem a presença. Café, caminhada, almoço: momentos simples valem mais do que conversas apressadas por mensagem. - Seja vulnerável.
Falar do que sente aproxima. A sinceridade cria confiança, que é o alicerce de uma boa amizade. - Reconheça seus limites.
Nem sempre dá pra estar disponível pra todo mundo. Cuidar de si também é parte do processo de cuidar do outro.
A vida é melhor quando é compartilhada
A gente fala muito sobre melhorar relacionamentos amorosos, mas talvez o primeiro passo seja melhorar as amizades. Elas são o primeiro espaço onde aprendemos a dialogar, a reparar, a perdoar e a pertencer. Sem elas, o amor romântico também perde sustentação.
Na Ser Bene, a gente acredita que vínculos saudáveis começam na escuta. Nas nossas práticas e cursos, o objetivo é o mesmo: reaprender a se conectar: com os outros, com o mundo e com você mesmo. Porque nenhuma vida é plena se for vivida sozinha.